Texto de Apresentação
Prof. Dr. Paulo César Antonini de Souza
Ingressar em uma universidade pública, em busca de aperfeiçoamento ou de aprendizagem para suas habilidades apresenta muitos desafios. Talvez um dos mais difíceis de se lidar seja o eventual distanciamento da família e dos amigos quando a pessoa se descobre tendo que mudar de cidade, de estado, às vezes do próprio país de origem. Há outros: o investimento financeiro que qualquer formação requer; o choque de culturas e ideologias; a frustração, o medo, a ansiedade com formas de conhecimentos que exigem autonomia no processo de ensino e aprendizagem; a diversidade de opiniões, as cobranças, a pouca experiência.
Descobrir-se no ambiente universitário e encontrar seu espaço a partir dessa descoberta é um processo que se materializa aos poucos. No mesmo sentido, ao escolher uma formação que objetive o desenvolvimento de suas habilidades artísticas, o olhar estético, a sensibilidade para a criação, a profissionalização de algo que até então era muitas vezes um passatempo, ou considerado como um presente divino: um dom, também exige uma dose contínua de resistência.
De repente, a pessoa descobre que seu “dom” é resultado de incentivo, da curiosidade epistemológica, das possibilidades materiais, da assertividade nas relações interpessoais que antecederam sua vida antes de entrar na universidade. Surgem as nomenclaturas, os teóricos, os estetas, as escolas, os estilos, as técnicas, as adversidades camufladas, a competição. Aquilo que era passatempo ganha corpo e forma. Ganha cores.
No primeiro ano do curso de Artes Visuais, muitos desses contatos novos se iniciam em um percurso que busca fundamentos para construção de uma linguagem, ou as possibilidades iniciais para a investigação de uma poética começam a se constituir. Esses processos encantam algumas pessoas e desencantam outras. Isso faz parte de qualquer período de descobertas e o valor do que está envolvido nisso, pessoal, cada um vai perceber por si.
Em 2020 esse cenário de novidades/descobertas se constituiu em um patamar até então inimaginável por aquelas e aqueles que começaram o ano com rostos pintados, abraços, dividindo espaços com seus corpos. Em 2020 foi necessário adaptar-se para sobreviver não apenas a esse universo acadêmico, mas sobreviver literalmente, à exposição de um vírus que afetou a população da Terra, levando à morte mais de 1 milhão e setecentas mil pessoas no mundo e mais de 189 mil pessoas somente no Brasil, até o momento em que essa exposição se torna pública.
Essa adaptação teve um preço e o distanciamento se tornou mais acirrado, a autonomia se fez ainda mais necessária e nunca se exigiu tanta dedicação pessoal e compromisso com as escolhas pessoais. Outras formas e outras cores passaram a fazer parte de nossas paletas humanas. Outros modos de modelar nossas vidas. Outros olhares para nosso estar no mundo. E para as pessoas que se viram obrigadas a adaptar-se, com vontade de sobreviver, de resistir, de se expressar, de vencer o fatalismo e o discurso derrotista que tentou levar muitos para baixo, buscaram nessas adversidades o impulso para criar conscientemente.
Nesse sentido, os trabalhos reunidos nessa exposição virtual são alguns dos indícios desse processo formativo, que envolveu um grupo de 50 estudantes do primeiro ano dos cursos de Artes Visuais Licenciatura e Artes Visuais Bacharelado da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul em Campo Grande/MS. Apoiando-se em novos Fundamentos e Teorias, esse grupo se manifesta em nome de toda uma nova geração de artistas e docentes em formação e busca no registro de seu percurso, sinalizar com cores, formas, e por um discurso estético em construção, que estão AQUI. Que escolheram estar AQUI. E que vão continuar a buscar meios para resistir e superar todas as adversidades.
